Histórias da História
Henrique Amaro, porventura, o bombeiro mais antigo de Portugal
UMA LIÇÃO DE VIDA... E DE HISTÓRIA!
UMA LIÇÃO DE VIDA... E DE HISTÓRIA!
Texto: Luís Miguel Baptista
Em 2006, no âmbito da passagem dos 75 anos da Associação dos Bombeiros Voluntários de Agualva-Cacém (ABVAC), tive o privilégio de participar, por convite do então presidente da Direcção, Jaime da Mata, em dois números do boletim informativo daquela instituição, alusivos à efeméride. Decidi, na altura, em termos de conteúdo, concorrer com alguns subsídios para a história da ABVAC, recolhendo as memórias de uma personalidade credora do maior respeito e admiração: o 2.º comandante do Quadro de Honra, Henrique Amaro, um exemplo de vida e de história viva. Porventura, estaremos na presença do bombeiro mais antigo de Portugal, com cerca de 100 anos de idade, facto que justifica, só por si, a transcrição de várias passagens de uma vivência pontificada pela permanente dádiva aos outros. De igual modo publicamos fotografias cedidas pelo biografado, ao autor do texto, para fins ilustrativos.Henrique Amaro, 2.º comandante do Quadro de Honra dos BVAC, é o único representante vivo da mais antiga geração de bombeiros de ontem e de sempre, podendo regozijar-se do facto de ter ainda conhecido a maioria dos fundadores da Associação, incluindo o seu primeiro comandante, Carlos Charbel Girardin.
Alistou-se no Corpo de Bombeiros em 1941, como aspirante, quatro anos após a fixação de residência no então lugar de Agualva. Antes, fora bombeiro de 3.ª classe nos Voluntários de Campo de Ourique, situação ignorada no processo de alistamento, vendo-se obrigado a frequentar a escola de recrutas.
A adesão aos BVAC ficou a dever-se à influência do farmacêutico Leopoldo Soromenho Barbosa, na altura presidente da Direcção, que ao saber da faceta de Henrique Amaro como bombeiro, em Lisboa, nunca mais desistiu de o desafiar para pertencer à corporação local, então comandada pelo benemérito Jorge Antunes dos Santos.
Hoje, aos 95 anos de idade, com uma lucidez admirável, recorda que não teve coragem para recusar o desafio. Manteve-se no activo durante cerca de 30 anos. Em 1965, foi nomeado 2.º comandante do Corpo de Bombeiros, completando o quadro de comando, até então apenas preenchido por Artur Lage, comandante, e Joaquim Barreira de Almeida, ajudante de comando. Cinco anos depois, passou, a seu pedido, ao antigo Quadro Honorário. Entretanto, no período de 1968 a 1970, exerceu, em duas fases distintas, a função de comandante interino.
Memória viva
As memórias de Henrique Amaro têm dupla relevância. Por um lado, traduzem as virtualidades do voluntariado de outrora e, por outro, constituem uma afirmação de que a história dos BVAC não se esgota na luta contra o fogo ou na prestação do socorro a feridos e doentes. São, também, um precioso auxílio à compreensão das transformações sofridas nos meios físico e social de Agualva-Cacém.
Quando Henrique Amaro entrou para as fileiras do Corpo de Bombeiros, Agualva e Cacém eram lugares eminentemente rurais e de veraneio para as famílias de Lisboa. Mais do que hoje, ser bombeiro constituía uma actividade nobre e na qual a juventude se sentia realizada, perante a ausência de atractivos.
Quando Henrique Amaro entrou para as fileiras do Corpo de Bombeiros, Agualva e Cacém eram lugares eminentemente rurais e de veraneio para as famílias de Lisboa. Mais do que hoje, ser bombeiro constituía uma actividade nobre e na qual a juventude se sentia realizada, perante a ausência de atractivos.
O quartel-sede dos BVAC, instalado no Largo da República, mais precisamente na área hoje ocupada pelo edifício de habitação que acolhe a Churrasqueira Solar de Agualva, era um local privilegiado nas relações e no desenvolvimento comunitário, inspirado pelos valores humanistas da solidariedade, da fraternidade, da entreajuda, do respeito pelo outro, da tolerância, do companheirismo e do convívio.
O Corpo de Bombeiros tinha pouco mais de 20 elementos e dispunha de dois pronto-socorros, uma ambulância e uma bomba braçal. Com este equipamento servia uma população inferior a 3 mil habitantes.
Nesse tempo, o risco de incêndio em habitações era praticamente nulo, quer pela inexistência de edifícios de grande altura, quer pelas próprias características dos respectivos recheios, os quais não reuniam a perigosidade dos dias de hoje. Porém, o Corpo de Bombeiros procurava estar apto para enfrentar qualquer tipo de adversidade. A instrução, por norma dada aos domingos, mas também à noite, especialmente na época de Verão, consistia, sobretudo, no arvoramento de escadas de molas e de gancho, utilizando-se para o efeito, entre outros edifícios existentes em Agualva, a fachada da capela de Nossa Senhora da Consolação. Só mais tarde foi construído, por pessoal voluntário, nas traseiras do antigo quartel, um esqueleto de madeira equivalente a dois andares, que servia de casa-escola.Perspectiva de Agualva-Cacém nos anos 50
Tempos difíceis
Os incêndios em mato e floresta eram os mais frequentes nos serviços prestados pelos BVAC, nomeadamente, nas encostas da Serra de Colaride e do Casal do Cotão e, ainda, no Pinhal da Francesa, actual freguesia de Mira Sintra.
Henrique Amaro recorda quanto era difícil e exigente, em termos de esforço físico, o combate aos incêndios florestais. Os veículos não dispunham de depósitos de água, pelo que o pessoal combatente recorria, com frequência, à técnica de contrafogo. As chamas eram batidas com ramos de árvores e estas, quando necessário, eram cortadas com machados. Não existiam batedores e muito menos moto-serras.
Ao nível do serviço de saúde, as condições de trabalho do passado suscitam igualmente interesse e atestam como hoje se encontra facilitado o exercício da actividade de bombeiro. Por exemplo, nos anos 40, numa fase em que a única ambulância ao serviço esteve impedida de circular, devido a desgaste mecânico, o transporte de doentes e sinistrados era feito na parte traseira de um dos pronto-socorros, sendo a vítima acomodada numa maca de padiola.
O antigo comandante retém, de igual modo, na memória, os cenários dramáticos vividos nas cíclicas inundações no Cacém-de-Baixo, em 1953 e 1967, bem como numa explosão na Fábrica de Pólvora de Barcarena, onde participou no resgate de alguns operários já cadáveres. Não menos marcante foi a sua participação nas operações de socorro do trágico acidente ferroviário no Algueirão, em 1965, retirando entre os destroços de ferro vários passageiros estropiados.
Os incêndios em mato e floresta eram os mais frequentes nos serviços prestados pelos BVAC, nomeadamente, nas encostas da Serra de Colaride e do Casal do Cotão e, ainda, no Pinhal da Francesa, actual freguesia de Mira Sintra.
Henrique Amaro recorda quanto era difícil e exigente, em termos de esforço físico, o combate aos incêndios florestais. Os veículos não dispunham de depósitos de água, pelo que o pessoal combatente recorria, com frequência, à técnica de contrafogo. As chamas eram batidas com ramos de árvores e estas, quando necessário, eram cortadas com machados. Não existiam batedores e muito menos moto-serras.
Ao nível do serviço de saúde, as condições de trabalho do passado suscitam igualmente interesse e atestam como hoje se encontra facilitado o exercício da actividade de bombeiro. Por exemplo, nos anos 40, numa fase em que a única ambulância ao serviço esteve impedida de circular, devido a desgaste mecânico, o transporte de doentes e sinistrados era feito na parte traseira de um dos pronto-socorros, sendo a vítima acomodada numa maca de padiola.
O antigo comandante retém, de igual modo, na memória, os cenários dramáticos vividos nas cíclicas inundações no Cacém-de-Baixo, em 1953 e 1967, bem como numa explosão na Fábrica de Pólvora de Barcarena, onde participou no resgate de alguns operários já cadáveres. Não menos marcante foi a sua participação nas operações de socorro do trágico acidente ferroviário no Algueirão, em 1965, retirando entre os destroços de ferro vários passageiros estropiados.
Enquanto chefe dos BVAC (ao centro, de blusão), junto de valorosos bombeiros
Voluntariado zeloso
A par da sua intervenção nos sinistros, recorda, com emoção, o contributo dado pelos voluntários em suprir necessidades do Corpo de Bombeiros, nos períodos difíceis enfrentados pela Associação. No seu caso, foi durante vários anos responsável pela conservação das mangueiras, que ao tempo eram fabricadas em lona e, como tal, tinham maior probabilidade de se danificarem. A fim de evitar despesas à Associação na aquisição de novas mangueiras, obteve uma máquina para remendagem, solucionando, com êxito, vários problemas.
Cooperante em muitas acções, ocupou-se, ainda, com a construção de material de incêndio, tal como agulhetas com válvula e bombinhas de mão, precursoras dos extintores.
Mais tarde, quando assumiu, interinamente, a função de comandante, procurou introduzir inovações no domínio do equipamento, em correspondência aos primeiros sinais da transformação de Agualva-Cacém num meio de características urbanas. É disso exemplo a entrada ao serviço do primeiro auto-tanque, cedido pela antiga companhia petrolífera SACOR, equipado com bomba acoplada ao motor e mangueiras rígidas, a aquisição do primeiro pronto-socorro ligeiro todo-o-terreno, marca GMC, subsidiado pela ex-Inspecção de Incêndios da Zona Sul, e a dotação de uma manga de salvação.
A par da sua intervenção nos sinistros, recorda, com emoção, o contributo dado pelos voluntários em suprir necessidades do Corpo de Bombeiros, nos períodos difíceis enfrentados pela Associação. No seu caso, foi durante vários anos responsável pela conservação das mangueiras, que ao tempo eram fabricadas em lona e, como tal, tinham maior probabilidade de se danificarem. A fim de evitar despesas à Associação na aquisição de novas mangueiras, obteve uma máquina para remendagem, solucionando, com êxito, vários problemas.
Cooperante em muitas acções, ocupou-se, ainda, com a construção de material de incêndio, tal como agulhetas com válvula e bombinhas de mão, precursoras dos extintores.
Mais tarde, quando assumiu, interinamente, a função de comandante, procurou introduzir inovações no domínio do equipamento, em correspondência aos primeiros sinais da transformação de Agualva-Cacém num meio de características urbanas. É disso exemplo a entrada ao serviço do primeiro auto-tanque, cedido pela antiga companhia petrolífera SACOR, equipado com bomba acoplada ao motor e mangueiras rígidas, a aquisição do primeiro pronto-socorro ligeiro todo-o-terreno, marca GMC, subsidiado pela ex-Inspecção de Incêndios da Zona Sul, e a dotação de uma manga de salvação.
Integrado numa representação dos BVAC (primeiro da esquerda)
Uma vida cheia
Bombeiro multifacetado, Henrique Amaro dá-se por satisfeito e classifica a sua prestação nos BVAC como "uma vida cheia". Na verdade, fez de tudo um pouco, em resultado de residir perto do quartel e por dispor de uma linha telefónica privativa do Corpo de Bombeiros, extensível às casas de outros voluntários, através da qual era chamado de noite para acorrer a incêndios ou prestar assistência a doentes e sinistrados. Por isso, diz que era "um dos bombeiros da noite" e realça a existência da referida linha telefónica como um meio avançado para a época, pois, evitava, de madrugada, o lançamento de morteiros, dado ainda não existir sirene para a mobilização de pessoal.
Conjuntamente com Artur Lage, participou na instrução do pessoal do Corpo Activo, a convite do comandante António Gomes Fragoso, e assegurou inúmeros piquetes no antigo Cacém Cinema, para as instalações do qual se deslocava a pé, transportando consigo um extintor.
Todo o tempo que tinha disponível era dedicado aos Bombeiros, mesmo por ocasião das suas férias laborais.
Voluntário por opção e missão representou os BVAC, a suas expensas, em diferentes eventos dos bombeiros portugueses, na companhia do ajudante de comando Joaquim Barreira de Almeida, facto que denota a elevada dimensão de sacrifício, dedicação e competência das antigas gerações para que o nome de Agualva-Cacém fosse dignificado e não passasse despercebido no todo nacional.
Estas são, entre muitas, as memórias – os exemplos de dignidade humana, moral e cívica – do comandante Henrique Amaro, uma lição de vida… e de história, sob a divisa "Servir".
Bombeiro multifacetado, Henrique Amaro dá-se por satisfeito e classifica a sua prestação nos BVAC como "uma vida cheia". Na verdade, fez de tudo um pouco, em resultado de residir perto do quartel e por dispor de uma linha telefónica privativa do Corpo de Bombeiros, extensível às casas de outros voluntários, através da qual era chamado de noite para acorrer a incêndios ou prestar assistência a doentes e sinistrados. Por isso, diz que era "um dos bombeiros da noite" e realça a existência da referida linha telefónica como um meio avançado para a época, pois, evitava, de madrugada, o lançamento de morteiros, dado ainda não existir sirene para a mobilização de pessoal.
Conjuntamente com Artur Lage, participou na instrução do pessoal do Corpo Activo, a convite do comandante António Gomes Fragoso, e assegurou inúmeros piquetes no antigo Cacém Cinema, para as instalações do qual se deslocava a pé, transportando consigo um extintor.
Todo o tempo que tinha disponível era dedicado aos Bombeiros, mesmo por ocasião das suas férias laborais.
Voluntário por opção e missão representou os BVAC, a suas expensas, em diferentes eventos dos bombeiros portugueses, na companhia do ajudante de comando Joaquim Barreira de Almeida, facto que denota a elevada dimensão de sacrifício, dedicação e competência das antigas gerações para que o nome de Agualva-Cacém fosse dignificado e não passasse despercebido no todo nacional.
Estas são, entre muitas, as memórias – os exemplos de dignidade humana, moral e cívica – do comandante Henrique Amaro, uma lição de vida… e de história, sob a divisa "Servir".
Na inauguração de uma viatura que recebeu o seu nome (homenagem da Direcção da ABVAC - mandato de 2007)














